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Inteligência artificial e o novo perfil das ações trabalhistas: o que o cenário do Reino Unido revela sobre o futuro da Justiça do Trabalho

Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ser uma novidade restrita a times de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas, inclusive daquelas que buscam a Justiça para resolver um conflito trabalhista

No Reino Unido, esse movimento já mostra números concretos, e eles ajudam a entender um fenômeno que tende a se repetir, com suas próprias particularidades, em outros países, incluindo o Brasil.

De acordo com dados do Tribunal do Trabalho responsável pelas ações na Inglaterra e no País de Gales, o volume de processos individuais apresentados cresceu 39% entre os anos fiscais de 2024 e 2025 e o período seguinte. Uma parte considerável desse aumento está diretamente relacionada ao uso de ferramentas de inteligência artificial por trabalhadores que, sozinhos e sem apoio jurídico especializado, passaram a redigir petições, organizar provas e estruturar reclamações com auxílio de chatbots.

Consequentemente, esse movimento não ficou restrito a casos simples. Advogados relatam que o uso de IA já está presente em praticamente todos os processos que acompanham atualmente, envolvendo desde reclamações básicas até disputas mais complexas, como as que tratam de discriminação no ambiente de trabalho. Esse tipo de caso, por sua natureza, exige mais tempo de análise, o que contribui ainda mais para o acúmulo de processos pendentes.

Acesso à Justiça: o lado positivo da tecnologia

Por outro lado, é importante reconhecer que essa democratização do acesso à Justiça tem um valor real. Historicamente, trabalhadores que não podem arcar com os custos de uma assessoria jurídica especializada enfrentam uma desvantagem significativa diante de empresas com departamentos jurídicos estruturados. Nesse contexto, a IA passou a funcionar como uma espécie de ponte, permitindo que pessoas sem recursos financeiros ou mesmo sem domínio do idioma, no caso de trabalhadores migrantes, consigam organizar seus argumentos e compreender melhor o processo que estão movendo.

Para profissionais que atuam em organizações de apoio a trabalhadores, essa possibilidade representa um avanço concreto. Afinal, quando alguém enfrenta uma condição de neurodiversidade, uma deficiência ou dificuldade de comunicação verbal, contar com uma ferramenta gratuita e acessível para estruturar um caso pode ser decisivo para garantir que um direito legítimo não fique sem resposta simplesmente por falta de condições de expressá-lo formalmente.

Os riscos de uma ferramenta sem filtro crítico

Ainda assim, o mesmo recurso que amplia o acesso à Justiça também introduz riscos importantes. Diferentemente de um profissional jurídico, a IA não questiona a premissa apresentada pelo usuário. Se alguém relata ter sofrido uma situação de assédio ou bullying no ambiente de trabalho, o sistema simplesmente aceita essa afirmação como verdadeira e segue orientando sobre valores de indenização e formas de registrar uma queixa formal.

Esse comportamento gera um efeito colateral relevante: expectativas de indenização que não correspondem à realidade do caso. Documentos gerados por IA costumam ter aparência extremamente profissional, o que reforça no trabalhador a confiança de que seu pedido é sólido, mesmo quando a estimativa apresentada está distorcida ou exagerada. 

Diante de um número que parece bem fundamentado, é natural que a pessoa se sinta mais resistente a aceitar um acordo, o que prolonga disputas que, de outra forma, poderiam ser resolvidas de maneira mais rápida.

Há ainda casos ainda mais delicados, como reclamantes que anexam involuntariamente os próprios comandos utilizados para gerar as petições, ou que apresentam documentos acompanhados de instruções de uso destinadas à própria IA. 

Episódios assim exigem que audiências preliminares, que deveriam servir para delimitar os pontos centrais da disputa, sejam usadas para esclarecer o que, de fato, foi produzido de forma automatizada.

Um Judiciário sob pressão crescente

Enquanto o volume de ações cresce, o número de juízes disponíveis para julgá-las não acompanha o mesmo ritmo. No Reino Unido, o estoque de processos pendentes aumentou 55% em um único ano, chegando a 64 mil casos represados. 

O resultado prático já aparece na rotina de escritórios de advocacia: audiências finais estão sendo agendadas para 2028, um prazo que reforça a percepção de um sistema próximo do colapso, nas palavras de representantes de entidades que atuam junto a empregadores.

Esse cenário se soma a outros fatores estruturais, como o aumento de diagnósticos relacionados à saúde mental e à neurodiversidade, além de uma conscientização maior sobre direitos trabalhistas na sociedade como um todo. 

Some-se a isso o temor de que reformas legislativas recentes, voltadas à ampliação da proteção ao trabalhador, provoquem uma nova onda de litígios, e fica claro que o desafio não tem uma única causa, mas sim, um conjunto de variáveis que se retroalimentam.

O que esse cenário revela para o Brasil

Embora o contexto britânico tenha suas particularidades, o pano de fundo é bastante familiar para quem acompanha a realidade da Justiça do Trabalho brasileira. Aqui também convivemos com um volume expressivo de ações, prazos que se estendem por anos e um sistema que, mesmo com sua estrutura própria, enfrenta desafios semelhantes de sobrecarga.

A diferença central está na origem do gargalo. No Reino Unido, o crescimento repentino está diretamente ligado ao uso disseminado de IA por reclamantes. No Brasil, o desafio histórico está menos relacionado à forma como as ações são elaboradas e mais à duração do processo judicial em si, da fase de conhecimento até a efetiva execução da sentença. 

Em ambos os cenários, entretanto, o resultado prático para quem espera por um direito reconhecido é o mesmo: tempo, incerteza e, muitas vezes, dificuldade financeira ao longo da espera.

O tempo como fator decisivo

É justamente nesse ponto que reside o principal aprendizado que esse cenário internacional oferece. Independentemente da causa que sobrecarrega um sistema judicial, o tempo de espera segue sendo o fator que mais impacta a vida prática de quem tem um direito reconhecido, mas ainda não recebido.

Para trabalhadores que já obtiveram uma decisão favorável e aguardam o pagamento efetivo, essa espera representa custo real, seja pela perda de poder de compra, pelo acúmulo de dívidas ou pela impossibilidade de planejar o próprio futuro financeiro com previsibilidade. Diante desse cenário, mecanismos como a cessão de crédito trabalhista ganham ainda mais relevância, permitindo transformar um direito já reconhecido judicialmente em liquidez imediata, sem depender do ritmo de um sistema que, como mostram os dados do Reino Unido, tende a ficar mais lento antes de encontrar seu novo equilíbrio.

A Accorda acompanha de perto essas transformações no cenário jurídico, seja no Brasil ou em outras jurisdições, justamente para entender como elas impactam a segurança e a previsibilidade das operações de cessão de crédito que estrutura todos os dias.

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